Capítulo 14 Outros escritos
14.1 A Carta aos estudantes de Letras Libras
A carta de boas-vindas aos estudantes aprovados no curso de Letras Libras, oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina no polo da UFPE, conserva de forma especialmente nítida minha concepção de docência. Dirigi-me a eles como “cidadãos plenos, agentes do destino desta nação”. Não os tratei como beneficiários de uma concessão universitária, mas como pessoas que haviam conquistado o ingresso por mérito e por direito, em um vestibular realizado na Língua Brasileira de Sinais.
Na carta, distingui acesso de permanência. Entrar na universidade era apenas o primeiro passo; seria preciso garantir continuidade, progressão e conclusão em igualdade de condições. Essa distinção tornou-se central em meu trabalho: uma porta formalmente aberta não produz inclusão se, depois dela, o estudante encontra currículos, materiais, comunicações, avaliações e relações que o empurram novamente para fora.
Aos estudantes, pedi que não se tornassem invisíveis. Convidei-os a ocupar cantinas, restaurantes, departamentos, coordenações e a Reitoria, porque a Universidade também lhes pertencia. Disse que, diante de um direito, não deveriam pedir: deveriam exigir. Essa formulação não ensina hostilidade; ensina cidadania. Quem pede um favor se submete à vontade de quem concede. Quem exige um direito convoca a instituição a cumprir o dever público que justifica sua existência.
A carta também se dirigiu a professores, gestores e autoridades. A chegada de trinta e dois estudantes surdos retirava qualquer aparência de legitimidade do argumento de que a Universidade não se preparava porque não havia demanda. A demanda tinha nome, língua, história e presença. A qualidade da educação, escrevi, não poderia ser afirmada enquanto não alcançasse a todos. Ética e moral deveriam ser ensinadas também pelo exemplo institucional.
Há, nessa carta, uma pedagogia de passagem. Recordei aos estudantes que outros haviam lutado para que eles chegassem ali e que a conquista deles deveria abrir caminho na “mata fechada” da Universidade para os que viessem depois. O ensino superior não era apresentado como chegada individual, mas como responsabilidade intergeracional. Essa é uma das linhas mais constantes de minha vida: uma porta só está verdadeiramente aberta quando permanece aberta para os próximos.